Pablo Miyazawa

Qual é o mistério do “verdadeiro final” de Caverna do Dragão?

[O texto a seguir foi publicado em meu primeiro livro, 52 Mitos Pop: Mentiras e verdades nos boatos do mundo do entretenimento (Ed. Paralela, 2016) e contém a íntegra da reportagem “Mortos no Inferno”, publicada na edição #3 da revista Herói 2000 (Conrad, out. 1999) e reproduzida com autorização.]

Inspirado no famoso jogo de RPG Dungeons & Dragons, Caverna do Dragão foi um curioso caso de desenho que marcou uma geração sem possuir a qualidade técnica para tanto. A animação tosca, criada entre 1983 e 1986, de apenas 27 episódios, conquistou um público brasileiro sedento por aventuras de caráter medieval e com poucas opções desse tipo disponíveis.

Transmitido à exaustão no extinto programa de tv Xou da Xuxa, Caverna do Dragão talvez tenha mais apreço dos velhos fãs do que He‑Man, também transmitido pelo programa. A combinação certeira de ingredientes agradou a crianças e adolescentes fãs de brincadeiras de cavaleiros, espadas e dragões. Os enredos tinham apelo fantasioso, mas o drama vivido pelos seis jovens heróis foi facilmente compreendido pelo público: presos em um mundo estranho, eles só queriam voltar para casa.

Com seu apelo místico e carregado de mistério, o único destino possível de Caverna do Dragão era cair nas graças dos espalhadores de boatos. Em 1999, uma teoria sobre o desenho começou a circular por e‑mail. O mundo ainda se
acostumava a receber mensagens inúteis e eram poucos os que questionavam a veracidade dos conteúdos recebidos. E foi nesse cenário propício para a disseminação de boatos que surgiu a lenda do verdadeiro final de Caverna do Dragão.

Não dá para dizer que era uma história muito embasada, mas, naquele tempo, quem ousaria duvidar? O texto, escrito em caixa alta e aparentemente às pressas, descreve os acontecimentos de um suposto último episódio inédito. Os seis garotos descobririam que estavam mortos e esse seria o motivo de jamais conseguirem retornar para casa. Destinados a permanecer para sempre no inferno, eles enfrentam o demônio em pessoa, que apareceria na forma tanto do Vingador quanto do Mestre dos Magos. E sobrou até para a unicórnio Uni, que só existiria para atrapalhar os heróis. Tragédia pouca é bobagem.

Recebi o e‑mail com o boato em 1999. Na época, trabalhava como repórter na revista Herói e pedi ao editor para investigar a história. Tive a sorte de entrevistar três integrantes da equipe de criação do desenho, que resolveram totalmente a questão. O resultado foi a reportagem “Mortos no inferno”, publicada no número 3 da revista Herói 2000, a qual reproduzo a seguir.

O ano é 1986. A mania dos rpgs (role‑playing games) ainda era pouco conhecida no Brasil, mas o nome Dungeons & Dragons — o jogo mais importante do gênero — começava a surgir por aqui, na forma de um desenho animado exibido pela Rede Globo. Batizado de Caverna do Dragão, o desenho ganhou fãs e logo se tornou um dos mais populares da época. A animação mostrava as aventuras de Hank, Bobby, Eric, Presto, Sheila e Diana, seis crianças que foram transportadas para um mundo paralelo enquanto brincavam em um parque de diversões. Acompanhadas pelo unicórnio Uni e ajudados (nem sempre) pelo misterioso Mestre dos Magos, os heróis tentavam exaustivamente retornar para casa, enfrentando no caminho o maligno Vingador e Tiamat, o dragão de cinco cabeças.

Produzido de 1983 a 1986 pela Marvel Films em conjunto com a Dungeons & Dragon Corp., o desenho foi exibido pela CBS dos EUA. Depois de três temporadas e 27 episódios, a série foi encerrada sem uma explicação ou um final conclusivo. Quase quinze anos depois, alguns boatos circulam sobre a existência de um “verdadeiro” episódio final do desenho. Após um acidente fatal na montanha‑russa, Hanke seus amigos foram destinados a permanecer para sempre no inferno. Lá estariam sendo vítimas das maldades do demônio, que aparecia ora na forma de Vingador, ora na forma de Mestre dos Magos. Para auxiliar seu trabalho, o coisa‑ruim tinha a ajuda de Uni, que sempre impedia as crianças de retornar para a Terra. Essa trama macabra foi amplamente divulgada na internet, e tão bem contada que muita gente passou a tomá‑la como sendo verdadeira.

Gary Gygax, produtor e criador de Caverna do Dragão, é quem define: “Não há verdade alguma nisso. Nenhum episódio assim foi produzido. Tiamat não é um anjo nem ajuda de maneira nenhuma”. Já Mark Evanier, um dos roteiristas, é mais enfático: “Isso é completamente falso! Apesar de vários finais possíveis terem sido discutidos, nenhum último episódio foi realmente produzido”. O escritor Michael Reaves, roteirista de oito episódios, completa: “Caverna do Dragão foi um desenho muito sombrio para sua época, nós o levamos o mais longe possível para um programa infantil”. Apesar de Caverna ter sido um desenho à frente de seu tempo, Reaves diz que não haveria chance nenhuma de uma história desse tipo ter ido ao ar: “Os garotos não ficaram presos no inferno, nem o Mestre dos Magos é o demônio ou coisa parecida. Essa história toda é absurda”.

Ao final do terceiro ano da série, a CBS decidiu colocar no ar um episódio que encerrasse a temporada. Michael Reaves escreveu aquele que pode ser considerado o verdadeiro último capítulo da série: “Réquiem”. “Esse episódio foi escrito de forma que tivesse um duplo sentido, ambíguo e triunfante: se o desenho não continuasse, o final seria satisfatório; se continuasse, o episódio serviria de trampolim para uma nova direção”, explicou.

Reaves finalizou o script de “Réquiem” em maio de 1985. Para sua surpresa (e a de todos), a série foi encerrada bruscamente e o roteiro acabou nunca saindo do papel. Gary Gygax explica o fato: “Em 1985, a equipe do desenho se reuniu com os executivos da Marvel e da CBS e foi decidido que a série continuaria na temporada seguinte. Os seis garotos — mais velhos e experientes — seriam chamados de volta ao mundo da Caverna do Dragão pelo Mestre dos Magos. Três scripts foram feitos e eu até aprovei um deles. Mas algumas dificuldades surgiram. A D&D Corp. fechou e a CBS, junto com a Marvel, decidiu não continuar com o desenho. A nova série acabou cancelada antes mesmo de ser produzida”.

“Réquiem” pode ser considerado o verdadeiro final de Caverna do Dragão. Escrita em 1986, a história traz algumas revelações surpreendentes e um desfecho que certamente agradaria aos fãs. “Eu gostaria de que o episódio se chamasse ‘Redemption’ [Redenção], mas a emissora achou que esse nome dava muito na cara”, diz Reaves. Com a série cancelada, o roteiro não chegou a virar desenho. O episódio inicia com os seis garotos enfrentando uma hidra. O Mestre dos Magos aparece durante a briga, mas se recusa a ajudá‑los, o que causa estranhamento geral. Mais tarde, o Vingador surge e apresenta uma maneira de a turma voltar ao seu mundo: encontrar uma chave escondida e arremessá‑la em um abismo.

A proposta faz o grupo se dividir em dois (Eric, Presto e Sheila de um lado e Hank, Bobby, Diana e Uni do outro). Após quase morrerem em um vulcão, eles se juntam novamente e encontram a tal chave dentro de um sarcófago com a imagem do Vingador. Ao serem atacados por uma ameba gigante, Eric usa a chave em uma fechadura e salva seus amigos da morte certa. Isso faz o Vingador se transformar em sua forma real (um cavaleiro) e se revelar filho do Mestre dos Magos. Com o vilão libertado, os garotos ganham a opção de voltar para seus lares. O episódio termina sem o espectador saber se eles retornaram ou não para a Terra, deixando espaço para uma continuação na temporada seguinte.

Apesar de o boato ainda persistir nos confins da internet, “Réquiem” venceu. O roteiro inédito de Michael Reaves acabou aceito pelos fãs como o verdadeiro final de Caverna do Dragão, recebendo homenagens e versões não oficiais em quadrinhos e vídeos, além de pedidos coletivos para que o episódio seja produzido para valer. Redimidos após o inferno, os seis heróis estão em paz.

Texto originalmente publicado no livro 52 Mitos Pop: Mentiras e verdades nos boatos do mundo do entretenimento, publicado pela Ed. Paralela em 2016.


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